Friday, July 14, 2006

Minha vida, uma novela.

Já era outono...

Ângela sentada na varanda da nova casa suspirava, havia acabado de chegar o rádio que seu pai comprou e ela sabia que em poucas horas começaria a sua novela preferida na rádio lusitana, e no capítulo anterior Agenor fora até a casa de Sofia para pedi-la em casamento a seus pais.
Ângela era uma moça alegre, gostava de ler os magazines da editora Primavera, onde sempre havia fotos de pin-ups ousadas, gostava mesmo era de fechar os olhos e de se imaginar com aquelas roupas mais decotadas, com maquiagem saliente, bebendo algo forte e despertando olhares libidinosos. Logo em seguida, ouve sua mãe lhe chamando, abre os olhos assustada como se alguém tivesse descoberto seus pensamentos ousados e sai correndo ao encontro de sua mãe.
Sua mãe lhe diz que é para ela se vestir porque irão ao encontro da costureira na Rua do Arouche que irá fazer o vestido para a festa do casamento de sua irmã. A menina parecia não acreditar naquilo que sua mãe acabara de dizer, pela primeira vez ela teria um vestido feito sob medida, coisa que até então, somente sua irmã tinha o privilégio por já ser moça comprometida, e segundo sua mãe, somente moças e senhoras podem fazer roupas por medida por terem curvas, e ela considerada até então como criança tinha que comprar seus vestidos recatados no departamento juvenil do Mappin na Praça Ramos de Azevedo.
A casa nova ficava localizada no bairro de Campos Elíseos, mais precisamente na Alameda Barão de Limeira, e para chegar à costureira pegavam apenas um bonde e em poucos minutos já estavam no atelier da costureira, mas aquela viagem aparentemente curta, para Ângela naquele dia, parecia ser a viagem mais longa, a mais excitante e a melhor de sua vida.
Depois de tiradas as medidas, a costureira pergunta se Ângela já tem um pretendente, a menina em segundos ruborizou-se e perdeu a fala, pela primeira vez alguém a via como moça crescida, pronta para Ter pretendente, sua mãe percebendo o embaraço da menina responde em seguida que Ângela ainda não havia sido cortejada porque virara moça com a entrada do Outono. Seu coração disparou, a menina moça pela primeira vez percebe que sua mãe deixara de vê-la definitivamente como criança.
No caminho de volta, ainda dentro o bonde, Ângela comentava com sua mãe sobre um livro de etiquetas que acabara de chegar no Brasil, tradução de um livro francês e sua mãe disse que ia procurar saber mais a respeito para entender se a literatura era apropriada para sua idade, Ângela quase não se conteve e abraçou sua mãe fortemente e assim voltaram juntas para casa, abraçadas.
Já eram quase 7 horas da noite quando Ângela sai correndo de seu quarto em direção a sala para ouvir sua novela, depois de passado os jingles, a menina senta-se à poltrona menor, localizada ao lado da mesa, estava ansiosa, juntava as duas mãos, entrelaçando os dedos e olhando para seu pai que falava sobre a companhia de energia onde trabalhava, seu olhar era de punição, a única coisa que ela queria era que o mundo fizesse silêncio naquele momento.
De repente, batem na porta, todos olharam-se e sua mãe pergunta se seu pai espera por alguém e o mesmo responde que não. Ângela que sempre fora curiosa, já nem queria mais saber quem batia na porta, queria apenas escutar o estalo do beijo entre Agenor e Sofia.
O momento do beijo se aproximara, Ângela tentava controlar a respiração, para ela, Sofia era uma parte de si, acompanhara a novela desde o primeiro capítulo, decorava as falas de Sofia e as recitava em frente ao espelho toda noite antes de dormir.
Na noite anterior repetiu várias vezes na frente do espelho a frase:
- Eu sempre te esperei Agenor, até mesmo antes de saber de sua existência.
Enquanto ouvia o capítulo onde Agenor era apresentado para os familiares distantes de Sofia que vieram justamente para o pedido de casamento, ouve-se a fala:
- Agenor, essa é Ângela, sua prima.
Ângela assustada olha para o rádio sem entender o que acontecera e ouve novamente:
- Ângela, diga oi para seu primo!
E Ângela olha para seu pai acompanhado de um rapaz de sorriso estonteante e fica mais confusa ainda, não sabe se a fala veio do rádio ou da sala, logo em seguida vem a confirmação, seu pai já um pouco constrangido diz:
- Essa juventude! Não sei porque inventam essas novelas, essa menina parece que vai para lua quando ouve essa novela. Anda! Cumprimente seu primo Agenor de Sorocaba que vai ficar conosco durante o Outono até conseguir se inscrever para a Força Armada.
Ângela levanta-se e estende sua mão, o rapaz a cumprimenta, e o mundo parou ao seu redor enquanto cumprimentava seu primo Agenor, a última vez que se viram, seu primo tinha dez anos e ela oito.
Em seguida, todos sentaram-se, seu pai falava com empolgação ao rapaz sobre o resto da família que não vê a alguns anos desde a morte do avô de Ângela, relembrando as traquinagens de seus irmãos quando crianças. Ao voltar sua atenção para o rádio a menina percebe que o capítulo já está no final quando o noivo se despede da família de Sofia, e sente uma grande tristeza por ter perdido aquele capítulo que esperou ansiosamente o final de semana todo, mas em poucos segundos seu sentimento de tristeza foi substituído por outro que ela não conseguira entender, e olhou para o lado e percebe que seu primo escuta seu pai e de vez em quando volta o olhar para ela.
Enquanto seu pai e seu primo conversavam, a menina percebe que ela e sua mãe viraram objetos de decoração na sala, de acordo com a boa etiqueta, uma mulher jamais poderia entrar na conversa de dois homens sem ter sido abordada, então ela e sua mãe apenas observavam e quando lhes era permitido riam de algum comentário, e em seguida calavam-se até a próxima deixa. Nesse meio período, a menina insinuava-se na troca de olhares com o rapaz, o provocava com a cruzada de pernas.
Sua mãe percebendo o que estava acontecendo, levanta-se e diz que vai aprontar o quarto do rapaz que deve estar cansado e chama Ângela para acompanhá-la, Ângela aparentemente contrariada, se levanta também, pede licença e acompanha sua mãe.
E enquanto subia a escada em direção aos quartos da casa, um único pensamento não saia de sua cabeça:
- Agenor, por que logo Agenor? Vai ver que minha vida realmente está ligada a vida de Sofia.
Depois de Ter ajudado sua mãe a preparar o quarto de seu primo, Ângela vai em direção as escadas para avisá-lo de que seu quarto está pronto, não percebendo que seu sapato estava escapando de seus pés, Ângela tropeça e cai nas escadas, o barulho é horrível, sua mãe sai correndo do quarto, seu pai e Agenor correm em direção a escada, e a menina já está deitada no final da escada. Agenor aproxima, ajoelha-se, levanta a cabeça de Ângela e encosta em seus braços.
Ângela sentia então que o grande momento de sua vida havia chegado, abre lentamente os olhos, olha nos olhos de Agenor, sua boca sangra e diz para ele com ternura:
- Eu sempre te esperei Agenor, até mesmo antes de saber da sua existência.
Em seguida a menina fecha os olhos.

4 comments:

Bianca said...
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Bianca said...

Júúúúú
Eu sei que isto é um conto, e que a intenção real é deixar um "quê" de mistério em nossas mentes, fazendo nossa imaginação viajar pelos mais absurdos finais...mas não vou me contentar enquanto você não me revelar o qu passou pela sua cabeça ok??rs

beijos

Anonymous said...

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